Cap 2
Eu amo ir ao cinema só. E já passei daquela fase em que gostaria de entrar na sessão quando já começado o filme para que ninguém visse que existia um pobre morador do Humaitá sozinho ali. Não. Cinema é programa para ir sozinho. Confia em mim.
Nada pior do que dividir a pipoca, tentar achar lugar junto, ter que explicar cenas, dividir mentex. E nada, nada pior do que ter que gerenciar uma outra pessoa além de você mesmo em uma sala onde pouco se enxerga e tem outros sociopatas como você por perto. Entrei na sala bem antes, passei algumas mensagens de texto e sentei na segunda cadeira de uma das pontas de uma fileira ótima, escolhida a dedo e acreditei que não seria incomodado. Balela. A sala foi enchendo, foi enchendo. E aí, minha sociopatia foi crescendo como o leão da Metro-Goldyn-Meyer. Eu menti para dois homossexuais (termo correto) que chegaram com blusinhas babe-look (quem usa isso ainda?) e disse que os lugares estavam ocupados.
Para uma senhora de muletas e pé quebrado (nada demais, nenhum alejo) que veio com seu marido de camisa pólo (pé quebrado no cinema?? Molho nela, Seu José !), para duas amigas de óculos fundo de garrafa(com essa deficiência visual, elas não iam enxergar nada ao meu lado mesmo, e corria o risco de me perguntar, se era ou não era a fulana daquele seriado da tv que estava seduzindo o protagonista). Quando uma gordinha simpática veio na minha direção, eu saquei e celular e forjei uma ligação.
Não seria a primeira, nem a última: Mãe, tudo bom ? Você já vai sair daí ? Achei que você ia ter alta por agora (!!!) senão eu ia te ver....(quem interromperia um filho preocupado e culpado com o mãe. Eu tenho um nariz enorme, meio árabe, passei por um judeu ligando para a mamãe Rachel).
Ufa, escapei. Por fim, apagou-se as luzes. Oba ! Daqui a pouco, chega um jovem simpático e uma senhora fofa. Eu pensei, FDP...devem ser moradores do...Flamengo ou Laranjeiras. Gente, vão ao Cine São Luiz !!
Ele fez a pergunta clássica de seus predecessores: Oi, está ocupado ? Eu disse: Está. A senhorinha fofa insistiu: Tem gente aí, meu querido ? Eu disse: Tem. Ela disse, agora se referindo ao simpático: Filhote, vamos ter que sentar separados, mamãe vai ficar aqui em cima tá ? Aí, caí em mim. Q
Que tipo de canalha separaria uma mãe e o filho em um filme, qualquer filme?
E logo o filme que todos deveriam ver para não serem excluídos de conversas tolas com interlocutores bobocas ? O carinha simpático sentou ao meu lado.
Cheio de culpa e envergonhado pela minha ganância em assistir um filme na calma sessão da 17:30 de Sábado, onde já tinha crianças gritando - gente, que tipo de pais não são mais sócios do Piraquê , do Caiçaras ?
Enfim, me virei para trás e vi a senhorinha sacar um óculos todo em de bolinhas petit-pois com astes azul-marinho da Max Mara, respirei e disse rapidamente para o cara: Vou dar um telefonema, se minha companhia não vier, você sentam juntos, ok ? O simpático sorriu. Forjei um novo telefonema que de tão patético vou reproduzir.
Ensino: Para forjar telefonemas, sempre coloque o aparelho no modo silencioso, pois um falsário não pode correr o risco de que ele toque enquanto você está falando....sorria e gesticule...para dar veracidade.
Alô ? Oi amore, cadê você ? Está chegando ?....hummmm sei hummm sei....Mas, a sessão já vai começar e há pessoas querendo lugar (momento de responsabilidade cívica).....blá blá blá......desligo.
Me virei para o rapazinho e disse: Vocês vão poder se sentar juntos! Ele ficou feliz e, eis que a senhorinha veio. Eles se acomodaram e sorriram (Que ódio !!). Ele disse: Levou bolo, foi ? Poxa meu caro, que chaaaaaaato. E lá veio ela e disse: um rapaz bonito como você, não deve estar nem aí para isso. E ele rebateu: Bem, sua infelicidade, fez a nossa felicidade, quer pipoca ? Tem mentex também. Ih mamãe, acho que está na sua bolsa....(???) Quase morri.
Passei os cerca de 100 minutos de filme como se fossem os mais longos da minha vida, sem me expressar muito. Afinal, ao invés de ir ao cinema sozinho, como gosto e me acostumei, tinha uma dupla ao meu lado. Amigos de infância.
Antes dos créditos subirem, com medo de vir a ser convidado para um café, corri.
Saí de lá, liguei para minha mãe, que estava bem longe de qualquer hospital (sem que a gordinha para quem menti no início da sessão visse, claro). Minha mãe estava celebrando ter ganho ingresssos para o Cirque de Soleil. Que saco !! Eu disse: Mãe, na semana que vem, vamos ao cinema juntos ? Ela disse: Não sei não, ir ao cinema com você é meio chato, não dá para conversar, você briga(!!). Eu insisti.
Ela aceitou. Combinamos. Vou tentar ir ao cinema acompanhado mais vezes.
Vou começar treinando minha mãe. Com jeitinho, ela aprende a ficar quieta e que cada um tem que ter seu saco de pipoca. Ah, sobre o filme....Bem honesto. Vale o ticket.
Agora, posso voltar tranqüilo a conversar nas rodas mais desinteressantes da cidade.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
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3 comentários:
Eu também invento umas implicâncias aleatórias. Geralmente, os alvos são blockbusters que as pessoas insistem em dizer que são incríííveis. Ou, então, uns best-sellers cafonas tipo "O Caçador de Pipas". A verdade é que passei anos sem ver "Sexto Sentido" e quase uma década sem ver "Gladiador". Não tinha perdido nada...
Control C + Control V
Eu também concordo, com "babe- look", não dá...pelo menos 10 metros de distância, mais perto sangram os olhos..
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